Snow
09/05/2022

O Olhar

cacd língua portuguesa

POR MARCELO ROSENTHAL

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          Às vezes, por um trivial olhar, conseguimos identificar, inferir situações que estão à nossa volta. Todavia, há momentos nos quais o olhar há de ser aprofundado, investigativo, atento para compreender todos os intrincados fatos a nos rodearem. Como deve ser o nosso olhar para a língua? A língua é simples e complexa simultaneamente. Simples a ponto de crianças que sequer ainda foram desfraldadas usarem-na com intimidade, compreendendo as mensagens que lhes chegam e fazendo-se entender, quando necessário. Entretanto, também se torna complexa, porquanto açambarca um emaranhado gigantesco de normas e regras que constituem um código assentado para sua utilização.

          Temos o nefando hábito de estabelecer cotejos do Português com os demais idiomas. Já ouvimos, em diversas oportunidades, que o Inglês é muito mais fácil. Mas será que essa analogia é cabível?

          Eu sempre faço questão de enfatizar que não ensino Português para ninguém. Os meus alunos já conhecem muito bem a língua desde os quatro ou cinco anos. Todos, em plena infância, já têm o domínio suficiente da língua-mãe para o seu principal escopo: a comunicação. Quando estudamos uma língua estrangeira, nossa finalidade é tão somente possuir justamente a capacidade da comunicação e, no máximo, não cometer erros gramaticais crassos ou estigmatizados por nativos do idioma. Dessa forma, o que buscamos na segunda língua é o que nós já temos na primeira desde quando ainda apertávamos as mãos de nossos pais para atravessarmos a rua.

          Então, o que distingue o estudo do Português do das demais línguas? O que buscamos quando estudamos a língua portuguesa?

          Se o cândido olhar – a habilidade para a arte da comunicação - já está internalizado na formação do caráter do indivíduo, o que almejamos – quiçá alvejamos - é o olhar minucioso, a análise detalhada das estruturas linguísticas, o aperfeiçoamento da intelecção das mensagens, a identificação de possíveis falhas e vícios gramaticais convencionados, com o consequente esmero na construção textual, levando-se em conta a correção, a coesão, a coerência e, até mesmo, a estética.

          Assim se deve estudar Português para concursos públicos, mormente o do Itamaraty. O aluno deve ter em mente que não aprenderá Português, mas sim a fazer uma prova específica.

          Destarte, o estudo deve abarcar duas fases: a primeira consiste em transformar as doutrinais gramaticais implícitas em explícitas, ou seja, concretizar os conceitos morfossintáticos, que são utilizados no cotidiano, mesmo que não os percebamos. Enfim, é reconhecer as regras de crase, colocação pronominal, pontuação, regência, concordância, classes gramaticais, funções sintáticas, classificação de orações, funções e figuras de linguagem, tipologia e gênero textual etc.

          A segunda consiste em exercitar, exercitar, exercitar, exercitar... exercitar muito. Resolver questões, sobretudo da banca IADES e das provas anteriores do IRBr, é postura imprescindível para atingir-se a aprovação no concurso.

          Como diria o poeta, gênio e – não esqueçamos – diplomata Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do Encontro.”. E aqui, para o êxito nos estudos para o Itamaraty, é a arte do encontro da determinação com a objetividade, da rotina com a disciplina, do conhecimento teórico com os exercícios, do comezinho olhar com o sofisticado olhar.


Marcelo Rosenthal

Servidor público e Professor

Servidor público do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª região e professor de Português com mais de 30 anos de experiência. Graduado em Letras Português-Alemão pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atua como professor em diversos cursos preparatórios para concurso. Autor do livro Gramática para Concursos (editora Impetus - 8ª edição) e coautor do livro Interpretação de Textos e Semântica para Concursos (editora Impetus - 3ª edição).

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